quarta-feira, 11 de agosto de 2021

Lentes

Com uma cara emburrada de ter sido acordada cedo e um olhar mau humorado e de poucos amigos, ela se dirigiu até a mesa da cozinha para tomar seu café da manhã. No prato de louça branco tinha uma fatia do seu melão favorito já cortadinho. Pronto para ser consumido. Na sua frente estava um pote de vidro com o restante do bolo de chocolate. Sobras de seu aniversário. E pra acompanhar, um copo de água bem fresquinho. Do jeito que ela gosta.


Sentei-me ao seu lado, com meu prato de louça branco e a minha fatia de mamão habitual, minha xícara preferida, grande, de bolinhas, com café preto recém passado, um vidrinho com iogurte natural caseiro, o pote de mel e o pote de granola.


Seguimos em silêncio enquanto apreciamos nossas frutas. Nosso bolo. Nosso iogurte. Nosso Café. Nosso momento. 


Ela, sempre tão faladeira, estava quieta.


Várias vezes pensei em quebrar o silêncio com alguma tirada engraçada, mas respeitei. Entendia seu silêncio. Afinal já tinha passado por isso em vários momentos da minha vida. Em todos os retornos das férias. 


No dia anterior ela estava indignadíssima, inconformada, chateadíssima e se achando super injustiçada por ter apenas 30 dias de férias. 


- Somente um mês de descanso mamãe, e o resto do ano é de trabalho - ela dizia.  Não é justo! 


Assim como em todos os domingos ela diz não ser justo somente dois dias de descanso contra cinco de trabalho.


- Também acho! Muito injusto! - respondi


Quebrei o silêncio congelante do café da manhã e começamos a conversar. Perguntei a ela  o que mais gostava das férias e dos  finais de semana. 


- Brincar! Só brincar!


Disse que ela podia levar a vida mais leve durante a semana.  Ela só precisava trocar o tipo de lente que ela via as coisas e o mundo. Os dias de semana também podem ser legais como os finais de semana. Regados a brincadeiras, já que na escola ela passaria os dias mais interessantes de sua vida. Com amigos. Parceiros. Cúmplices. 


Terminamos o café da manhã um pouco mais animados.  Escovamos os dentes, arrumamos as camas, trocamos de roupa. E voltamos ao ritmo normal.


E quem estava mais animada do que nunca quando chegou na escola? Ela! 


Falei. Foi só trocar a lente.


Texto: Maria Fernanda Garcia

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