quarta-feira, 11 de agosto de 2021

Sua Casa

Entrei lá, e parecia que nada tinha mudado… Estava tudo (ou quase tudo) exatamente no mesmo lugar de antes. Na cozinha só estava faltando geladeira, fogão e microondas. De resto estava tudo lá. Inclusive alguns alimentos como farinhas, açúcar, sal, chás…. Tinha até uma garrafa de água mineral aberta em cima da pia, como ela sempre deixava. 

Faz 1  ano e 4 meses que minha avó faleceu. Lembro como se fosse hoje a hora em que aconteceu. Estávamos todos no Hospital, logo depois da cirurgia feita às pressas, porque ela tinha caído em sua casa e quebrado o fêmur. Não aguentou a cirurgia e faleceu. Ninguém estava acreditando naquilo. Acho que nem ela estava acreditando naquilo. 

Nos abraçamos todos e choramos. Choramos por alguns minutos. 

Deixamos um pouco a tristeza de lado, para pensar na parte prática do enterro, velório e “sobrou” para mim e para minha prima  a missão de escolher a última roupa dela.

Naquele dia foi a primeira vez que entrei em sua casa sem ela. A casa ainda estava quente, úmida, aconchegante. Tinha comida na panela em cima do fogão, suco aberto dentro da geladeira, café dentro da cafeteira. Ela queria voltar lá. 

Photo by Gerson Repreza on Unsplash

Eu e minha prima começamos a abrir os armários dela. Lembro que pensei: Que invasão é essa! Abrir os armários da vó! Não sei vocês, mas eu nunca abri os armários da minha avó (mas a geladeira, sempre!), nem da minha mãe, nem de ninguém. É muito íntimo! Escolhemos uma roupa bem linda (ela era bem vaidosa), uma calcinha (nova e cheirosa), meias, e um sapato confortável (para ela caminhar gostoso nessa sua nova jornada) e voltamos para o hospital. Burocracia vai e vem e no dia seguinte fomos ao velório e enterro. 

Novamente nos abraçamos todos e choramos. Choramos por mais alguns minutos. 

Acabou! Cada um pra suas casas, com suas vidas e fim… 

A casa dela ficou lá, sozinha. Seu templo, seu refúgio, onde guardou por uma vida os seus segredos. Ela se foi e todas as suas coisas ficaram… Ficou a poeira ainda suspensa, à espera dela...

Voltamos todos lá, depois de alguns dias. A casa ainda estava quente, ainda úmida e ainda com vida. Num luto recente. Entre risadas e choros separamos algumas coisas para doar, para lembrar e para definitivamente não esquecer.

Semana passada fui até lá com minha mãe e ainda continuava (quase) tudo igual. Parecia que ela estava lá. Cama feita, cortina impecável e armário cheio de roupas e itens pessoais. 

No banheiro ainda estava lá, dentro de um copo, sua escova e pasta de dente. Cremes de rosto, toalha de mão e seu cheiro ... .ah seu cheiro! Esse eu estava sentindo desde a hora que entrei. 


Maria Fernanda Garcia


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