Entrei lá, e parecia que nada tinha mudado… Estava tudo (ou quase tudo) exatamente no mesmo lugar de antes. Na cozinha só estava faltando geladeira, fogão e microondas. De resto estava tudo lá. Inclusive alguns alimentos como farinhas, açúcar, sal, chás…. Tinha até uma garrafa de água mineral aberta em cima da pia, como ela sempre deixava.
Faz 1 ano e 4 meses que minha avó faleceu. Lembro como se fosse hoje a hora em que aconteceu. Estávamos todos no Hospital, logo depois da cirurgia feita às pressas, porque ela tinha caído em sua casa e quebrado o fêmur. Não aguentou a cirurgia e faleceu. Ninguém estava acreditando naquilo. Acho que nem ela estava acreditando naquilo.
Nos abraçamos todos e choramos. Choramos por alguns minutos.
Deixamos um pouco a tristeza de lado, para pensar na parte prática do enterro, velório e “sobrou” para mim e para minha prima a missão de escolher a última roupa dela.
Naquele dia foi a primeira vez que entrei em sua casa sem ela. A casa ainda estava quente, úmida, aconchegante. Tinha comida na panela em cima do fogão, suco aberto dentro da geladeira, café dentro da cafeteira. Ela queria voltar lá.
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| Photo by Gerson Repreza on Unsplash |
Eu e minha prima começamos a abrir os armários dela. Lembro que pensei: Que invasão é essa! Abrir os armários da vó! Não sei vocês, mas eu nunca abri os armários da minha avó (mas a geladeira, sempre!), nem da minha mãe, nem de ninguém. É muito íntimo! Escolhemos uma roupa bem linda (ela era bem vaidosa), uma calcinha (nova e cheirosa), meias, e um sapato confortável (para ela caminhar gostoso nessa sua nova jornada) e voltamos para o hospital. Burocracia vai e vem e no dia seguinte fomos ao velório e enterro.
Novamente nos abraçamos todos e choramos. Choramos por mais alguns minutos.
Acabou! Cada um pra suas casas, com suas vidas e fim…
A casa dela ficou lá, sozinha. Seu templo, seu refúgio, onde guardou por uma vida os seus segredos. Ela se foi e todas as suas coisas ficaram… Ficou a poeira ainda suspensa, à espera dela...
Voltamos todos lá, depois de alguns dias. A casa ainda estava quente, ainda úmida e ainda com vida. Num luto recente. Entre risadas e choros separamos algumas coisas para doar, para lembrar e para definitivamente não esquecer.
Semana passada fui até lá com minha mãe e ainda continuava (quase) tudo igual. Parecia que ela estava lá. Cama feita, cortina impecável e armário cheio de roupas e itens pessoais.
No banheiro ainda estava lá, dentro de um copo, sua escova e pasta de dente. Cremes de rosto, toalha de mão e seu cheiro ... .ah seu cheiro! Esse eu estava sentindo desde a hora que entrei.
Maria Fernanda Garcia

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